A garçonete da Literatura




Não é original a comparação do escritor com o garçom, por conseguinte, da escritora com a garçonete. Tampouco é minha ideia, mas a adotei com apego. Nada de errado com garçons e garçonetes, ao contrário, costumam realizar a contento suas tarefas. Às vezes, mais que isso. A comparação ganha força mesmo é na gorjeta: os dez por cento. Exatamente o valor de direitos autorais "praticado" no mercado brasileiro.


Mas a comparação não pode resistir ao teste de realidade. O garçom e a garçonete anotam o que entregam, se acaso o patrão negar a gorjeta somada e anotada ao longo do mês, esses profissionais têm como divergir, além do mais, a gorjeta não é todo o pagamento dos profissionais de mesa. A prestação de conta dos garçons, garçonetes, é feita mensalmente, há mecanismos jurídicos trabalhistas que garantem que tais pessoas não devam trabalhar de graça, que a prestação deva ser feita, que haja transparência na conta. Garçons e garçonetes podem contar com o pagamento por seu trabalho (salário mais gorjeta de dez por cento) para pagar, como todos os mortais responsáveis por si, boletos. 


O escritor e a escritora pagam boletos, escrevem textos literários, compõem livros. Principal e absoluto objeto (analógico ou digital) da arte chamada Literatura, a escrita do escritor, da escritora, transformada em objeto, é o que vai movimentar toda a cadeia do livro; digamos que é seu primeiro motor. Tamanha importância é inversamente proporcional ao que o(a) escritor(a) recebe, quando recebe. Não é raro feiras literárias, por exemplo, pagarem todos os profissionais envolvidos, do armador de palco ao assessor de imprensa, e convidarem aquele(a) que escreve livros para participar de mesas de forma gratuita, usando o velho bordão conhecido dos músicos: é para divulgar seu trabalho. Um trabalho fadado a ser eternamente divulgado e jamais pago pelo que vale. Um profissional que não precisa saber contar, mas ter fé. 


Após quebrada a eficácia da comparação, resta a esta escritora dizer que, com raras exceções (que só confirmam qual é a regra) não é possível viver de literatura,  mas é possível morrer dela. Aos iniciantes na carreira literária para os quais sempre pedem conselhos digo: arrumem um trabalho remunerado.



Adriane Garcia

06/07/2023

21/07/2023


A cada dia que passa, tomo mais conhecimento de autoras, principalmente, que não recebem seus direitos autorais, sequer prestação de contas. Parece que uma das atitudes que as escritoras/os escritores podem tomar talvez seja a de procurar saber, antes de assinar um contrato, se tal editora respeita seus autores, se cumpre cláusulas contratuais. Tais autoras me comunicam que quando cobram, recebem respostas evasivas, quando não grosseiras e até mesmo chantagens emocionais do tipo "você está desconfiando da editora". Ora, se a relação comercial fosse uma relação de confiança acima de tudo não demandaria contrato. Não se trata de uma relação afetiva que deva resultar na gratidão do autor, mas de uma relação contratual em que um entregou algo em troca de outro algo, e vice-versa. É esse algo em troca, contratualmente colocado (prestação de contas e direito autoral) que a autoria em muitas casas não recebe. O que tenho notado é que não se trata de algo tão incomum. E me causa estranhamento que uma classe geralmente tão empenhada em outras militâncias, não milite pelo seu parco direito.


13/09/2023

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