O barulho ensurdecedor





Recentemente, estive lendo Byung-Chul Han, o filósofo sul-coreano radicado na Alemanha. Li seu livro sobre o jardim, "Louvor à Terra", publicado pela editora Vozes, que me foi indicado carinhosamente pela poeta Simone Andrade Neves. 

Há muito tempo, lendo sobre teatro, marcou-me uma expressão oriental: "quando o discípulo está pronto, o professor aparece". Não quero com isso dizer que sou discípula de alguém, mas que, na vida, por diversas vezes, se repararmos, aquilo para o qual estamos prontos de alguma forma vem, pode ser um pensamento, uma palavra, uma pessoa, uma planta, um bicho, uma pedra. Uma obra de arte. Um livro.

Eu já estava, há anos, muito incomodada com o ruído. De certa forma, comuniquei isso quando escrevi meu livro Só, com peixes (ed. Confraria do Vento), que foi uma resposta minha ao incômodo do barulho. O excesso absurdo de informação, das importantes às inúteis. O rolar incessante nas telas, das redes sociais, passando-nos de um conteúdo a outro, de uma emoção a outra, em alta velocidade. 

Acabei de entristecer-me porque uma cantora morreu, um segundo depois ri da piada daquele político lacrador, mais um segundo e senti raiva da foto de um fascista, um segundo depois me emocionei com a ternura de um gato, voltaram a me lembrar da cantora que morreu, uma conhecida de redes posta mais uma vez, pelo décimo ano consecutivo, que está prestes a se suicidar, um escritor lançando mais um livro, aquele editor comeu macarrão com frango à parmegiana, a poeta que recebe aposentadoria continua dizendo que não tem renda, que está muito doente e vende mais uma rifa - sinto raiva de gente desonesta, uma foto de gatinho me restaura certa ternura, mas em seguida vejo a de um bombardeio de guerra. Passo de uma emoção a outra em uma espécie de esquizofrenia emocional. Sem tempo de acolher qualquer uma das informações, de digeri-las, sabendo que, na facilidade de passar de uma a outra, estou me dessensibilizando para todas.

Isso tudo reflete a relação com a leitura de livros: que exige concentração, tempo, imersão, sentir sentindo. Tantas pessoas acostumadas a ler literatura, por exemplo, têm lido tão menos ou têm relatado dificuldade em concentrar-se para ler.

Reflete a relação com o outro real.

Reflete a relação com os seres da nossa e das outras espécies. 

Byung-Chul Han diz que quando troco a coisa pela foto da coisa, estou preferindo a não-coisa. E eu me lembrei de alguns povos originários que acreditavam que ao fotografar algo, retiramos sua alma. Quanta alma me sobra depois de várias selfies? Estaria essa alma em frangalhos?

Concluí que para não ficar surda, preciso ouvir menos. Para não ficar cega, ver o essencial. Afinal, aquilo que vai me tocar apenas por um segundo e que conjuntamente tomará meu tempo real de horas e horas, não é sequer palavra.


Tão bonito este verso de Orides Fontela (uma poeta silenciosa): "Contra a aparência a atenção pura".


Adriane Garcia

14/06/2023

19/06/2023

01/09/2023



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